Crescimento, produtividade e competitividade precisam caminhar junto com integridade, controles e tomada de decisão responsável
O agronegócio brasileiro opera em um ambiente de alta pressão por produtividade, cumprimento de metas, eficiência logística e continuidade das operações. Esse cenário, fundamental para a competitividade do setor, também pode ampliar a exposição das organizações a riscos éticos quando decisões críticas passam a ser tomadas sob pressão excessiva.
Um levantamento realizado com 4.541 profissionais de 54 empresas do agronegócio identificou pontos de atenção importantes relacionados à chamada resiliência ética — a capacidade de manter uma conduta íntegra mesmo diante de situações de pressão. O setor apresentou Índice de Prontidão para Integridade e Resiliência de 6,83, acima da média nacional de 6,75, mas ainda com vulnerabilidades relevantes em determinadas funções e situações.
Os principais riscos identificados
Entre os riscos mais relevantes apontados pelo estudo está o vazamento de informações, especialmente no nível tático das organizações. Aproximadamente 21,9% dos profissionais avaliados nesse nível demonstraram menor resiliência ética diante de situações envolvendo informações sensíveis.
No agronegócio, esse ponto merece atenção especial. Dados sobre safras, produtividade, negociações comerciais, clientes, preços, fornecedores e estratégias de mercado podem possuir elevado valor competitivo. Em cadeias cada vez mais integradas, compartilhar informações para acelerar processos pode parecer operacionalmente conveniente, mas também pode gerar riscos comerciais, contratuais e reputacionais.
Outro ponto relevante envolve as demonstrações fraudulentas, com índice de 17,1% de baixa resiliência ética no nível tático. A pressão pelo cumprimento de metas pode levar a pequenos ajustes em indicadores, relatórios ou interpretações de desempenho que, gradualmente, passam a ser percebidos como práticas aceitáveis.
O estudo também identificou riscos relacionados ao assédio moral, com 16,2% de baixa resiliência no nível operacional, além de situações envolvendo presentes e favorecimentos, com 13,6%, e conflitos de interesse, com 13,1%.
O risco nem sempre começa com uma fraude
Um dos aspectos mais importantes do levantamento é que desvios relevantes geralmente não começam com uma decisão explícita de violar uma regra.
Eles podem surgir gradualmente.
Uma exceção é aceita para resolver um problema urgente. Depois, outra situação semelhante recebe o mesmo tratamento. Aos poucos, aquela prática deixa de parecer excepcional e passa a integrar a rotina da organização.
Esse processo é especialmente relevante em ambientes nos quais há forte cobrança por resultados, autonomia nas decisões e relacionamento constante com terceiros.
Por isso, programas de integridade eficazes precisam ir além de códigos de conduta e políticas formais. É necessário compreender como as decisões são efetivamente tomadas no dia a dia.
Governança e compliance como instrumentos de prevenção
A pesquisa recomenda medidas voltadas à redução dos riscos antes que eles se transformem em desvios efetivos.
Entre elas estão a revisão de metas e incentivos, estabelecimento de mecanismos de accountability para decisões críticas, criação de protocolos para circulação de informações sensíveis, capacitação para decisões sob pressão, desenvolvimento de lideranças e monitoramento contínuo dos riscos éticos. Canal Rural
Na prática, isso significa construir estruturas de governança capazes de responder perguntas como:
- Quem pode acessar determinada informação?
- Quem pode aprovar uma negociação?
- Existe segregação adequada de funções?
- Conflitos de interesse são identificados e registrados?
- Presentes e benefícios possuem regras claras?
- Decisões excepcionais precisam ser justificadas?
- Existem canais para comunicação segura de irregularidades?
Esses mecanismos ajudam a transformar compliance em uma ferramenta de gestão e não apenas em uma obrigação documental.
Integridade também é competitividade internacional
Para empresas inseridas em cadeias globais, o tema ganha importância adicional.
Compradores internacionais, grandes grupos econômicos, instituições financeiras e parceiros comerciais estão cada vez mais atentos à governança, rastreabilidade, integridade, proteção de informações e práticas ESG de seus fornecedores.
Isso significa que programas de compliance também podem funcionar como instrumentos de qualificação comercial.
Uma empresa capaz de demonstrar processos estruturados, controles internos, transparência e gestão de riscos tende a transmitir maior confiança para parceiros nacionais e internacionais.
Em operações de importação e exportação, essa confiança pode ser decisiva para estabelecer relacionamentos comerciais duradouros.
O agronegócio brasileiro precisa crescer com governança
O Brasil possui uma das cadeias agroindustriais mais relevantes do mundo e ocupa posições de liderança internacional em diversas commodities.
Manter essa competitividade exige mais do que produtividade.
À medida que as cadeias globais se tornam mais reguladas, digitalizadas e interconectadas, temas como compliance, governança, integridade, rastreabilidade e gestão de riscos passam a fazer parte da estratégia comercial.
O desafio não é eliminar a pressão por resultados — ela faz parte do ambiente empresarial.
O desafio é construir sistemas de governança capazes de impedir que essa pressão transforme exceções em práticas aceitáveis.
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📚 Referência de Mercado
- Canal Rural. Pesquisa com 4,5 mil profissionais revela principais riscos éticos do agronegócio . Disponível em: https://www.canalrural.com.br/agricultura/pesquisa-com-45-mil-profissionais-revela-principais-riscos-eticos-do-agronegocio/ . Acesso em: out. 2026.



