🌱 Mais produção, menos importação e maior presença externa mostram uma cadeia em recuperação
A cadeia brasileira do cacau encerrou a safra 2025/26 com sinais importantes de recuperação. Entre outubro de 2025 e setembro de 2026, o recebimento de amêndoas alcançou 226.497 toneladas, crescimento de 25,3% em relação ao ciclo anterior.
O avanço melhora a disponibilidade de matéria-prima nacional e ocorre ao mesmo tempo em que a moagem reage e as exportações de derivados ganham força.
O dado chama atenção não apenas pelo aumento da produção. Quando analisado em conjunto com a queda das importações de amêndoas e o crescimento das exportações de produtos processados, ele revela um movimento mais amplo dentro da cadeia: maior oferta doméstica, retomada parcial da atividade industrial e potencial de ampliação da presença brasileira no comércio internacional de derivados de cacau.
Esse cenário abre espaço para uma discussão estratégica. Para o Brasil, produzir mais é importante. Mas capturar mais valor dentro da própria cadeia pode ser ainda mais relevante.
🌿 A oferta nacional voltou a crescer
No terceiro trimestre de 2026, entre julho e setembro, o recebimento de cacau no país alcançou 71.652 toneladas, crescimento de 7,7% em relação ao trimestre anterior e de 5% na comparação com o mesmo período de 2025.
O desempenho reforça a recuperação da disponibilidade de matéria-prima nacional, mas ainda exige cautela.
Uma safra mais forte não significa necessariamente que os problemas estruturais da produção estejam resolvidos. O setor ainda depende de fatores importantes para sustentar esse crescimento nos próximos ciclos, entre eles:
- condições climáticas;
- sanidade das lavouras;
- produtividade;
- assistência técnica;
- investimentos nas propriedades;
- eficiência na cadeia produtiva.
Mais importante do que observar apenas um ano positivo será acompanhar se o país conseguirá manter esse ritmo de produção de forma consistente.
🏭 A moagem reage, mas ainda não voltou aos níveis anteriores
A indústria também apresentou melhora.
A moagem brasileira atingiu 53.743 toneladas no terceiro trimestre de 2026, crescimento de 8,1% em relação ao trimestre anterior e de 16,4% sobre o mesmo período de 2025.
Entre janeiro e setembro, o processamento acumulou 155.169 toneladas, avanço de 7,7% na comparação anual.
Apesar dessa recuperação, os volumes ainda permanecem abaixo dos níveis observados antes da crise do setor.
Esse ponto é importante porque mostra que a recuperação da produção precisa ser acompanhada pela recuperação da demanda e da atividade industrial.
Ter mais amêndoas disponíveis é apenas parte da equação.
Para que a cadeia gere mais renda, empregos e investimentos, é necessário que essa matéria-prima seja processada e transformada em produtos de maior valor.
📉 Importações de amêndoas recuam
Outro movimento relevante ocorreu nas importações.
Entre janeiro e setembro de 2026, o Brasil importou 18.068 toneladas de cacau, queda de 57,1% em relação ao mesmo período de 2025.
A redução está associada à maior disponibilidade de produção nacional e também ao nível ainda reduzido de moagem.
Mas existe uma distinção importante.
A queda das compras externas não significa necessariamente autossuficiência na produção de cacau. As importações continuam podendo funcionar como instrumento complementar de abastecimento da indústria, dependendo da necessidade de processamento e da disponibilidade interna.
Ainda assim, o movimento demonstra que, neste momento, o aumento da produção doméstica conseguiu reduzir significativamente a necessidade de matéria-prima importada.
🚢 Exportações de derivados avançam 54,3%
Do ponto de vista do comércio exterior, este é um dos indicadores mais estratégicos.
As exportações brasileiras de derivados de cacau chegaram a 17.311 toneladas entre julho e setembro, crescimento de 54,3% em relação ao mesmo trimestre de 2025 e de 22,1% frente ao trimestre anterior.
No acumulado de janeiro a setembro, os embarques alcançaram 44.050 toneladas, alta de 10,2% sobre o mesmo período do ano anterior.
Argentina e Estados Unidos apareceram entre os principais destinos, reforçando a presença dos produtos brasileiros em mercados relevantes.
Esse crescimento é importante porque os derivados representam um estágio superior dentro da cadeia de valor.
Quanto maior a capacidade de processamento e exportação de produtos industrializados, maior tende a ser a parcela de valor econômico que permanece dentro do país.
🍫 Exportar derivados significa agregar valor
Existe uma diferença importante entre exportar matéria-prima e exportar produtos processados.
O cacau pode percorrer diferentes etapas antes de chegar ao consumidor final:
- amêndoas;
- massa ou liquor de cacau;
- manteiga de cacau;
- pó de cacau;
- chocolates e outros produtos acabados.
Cada etapa adicional de processamento incorpora tecnologia, indústria, trabalho, logística e conhecimento.
Por isso, o crescimento das exportações de derivados é um indicador particularmente importante.
Ele mostra que o Brasil não participa da cadeia apenas como produtor agrícola, mas também possui espaço para fortalecer sua posição como processador e fornecedor internacional de produtos de maior valor agregado.
Essa lógica é semelhante à observada em diversas commodities brasileiras.
O desafio estratégico está em avançar da produção primária para etapas industriais capazes de capturar parcelas maiores de valor.
🌎 Diversificação de mercados fortalece a cadeia
A presença de diferentes destinos internacionais também reforça a importância da diversificação comercial.
Dependência excessiva de poucos compradores pode aumentar riscos para empresas e produtores.
Por outro lado, ampliar destinos permite:
- reduzir exposição a um único mercado;
- criar alternativas comerciais;
- melhorar capacidade de negociação;
- fortalecer presença internacional;
- aumentar a resiliência da cadeia exportadora.
Para empresas envolvidas na produção, processamento ou comercialização de cacau, acompanhar a evolução desses mercados pode revelar novas oportunidades.
📊 Os números mostram uma cadeia em transformação
Os principais indicadores ajudam a visualizar o movimento em curso:
- 226.497 toneladas recebidas na safra 2025/26 — +25,3%;
- 71.652 toneladas recebidas no terceiro trimestre;
- 53.743 toneladas de moagem no terceiro trimestre — +16,4%;
- 155.169 toneladas processadas entre janeiro e setembro;
- 18.068 toneladas importadas — -57,1%;
- 17.311 toneladas exportadas de derivados no terceiro trimestre — +54,3%;
- 44.050 toneladas exportadas no acumulado do ano — +10,2%.
Analisados em conjunto, esses números mostram uma cadeia que começa a recuperar capacidade produtiva, industrial e comercial.
⚠️ A recuperação ainda precisa se consolidar
Apesar dos resultados positivos, a cadeia ainda enfrenta desafios importantes.
O crescimento observado precisa se repetir nos próximos ciclos para que se possa falar em recuperação estrutural.
Entre os fatores que continuarão influenciando o setor estão:
- clima;
- sanidade das lavouras;
- produtividade;
- assistência técnica;
- investimentos;
- demanda doméstica;
- demanda internacional.
Além disso, o mercado global de cacau passou por períodos de forte pressão de oferta e preços elevados, afetando tanto produtores quanto indústrias.
A recuperação sustentável dependerá do equilíbrio entre produção, processamento e consumo.
🚀 O próximo passo é transformar produção em competitividade
O crescimento da safra brasileira de cacau é uma notícia positiva.
Mas o maior potencial está no que pode acontecer depois da colheita.
Mais produção pode reduzir dependências externas.
Mais moagem pode fortalecer a indústria.
Mais exportações podem ampliar mercados.
E mais processamento pode gerar maior valor agregado.
Esse é o ponto central.
O Brasil possui capacidade produtiva, conhecimento agrícola e estrutura industrial para avançar na cadeia do cacau. O desafio será transformar a recuperação atual em um ciclo duradouro de produtividade, industrialização e expansão internacional.
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📚 Referência de Mercado
-
Frederico Lamego.
Caminhos para o fortalecimento das relações Brasil e México no contexto do realinhamento de cadeias produtivas
.
Comex do Brasil.
Disponível em:
Caminhos para o fortalecimento das relações Brasil e México no contexto do realinhamento de cadeias produtivas
. Acesso em: out. 2026.



